Segunda-feira, Fevereiro 13, 2012

Entremortes

Do presente indefinido
vejo cinco caminhos que voltam
pro que talvez tenha sido
quinze que (me) partem e escondem
me escoltam
quem sabe onde

Vou vivendo do que fui e ninguém soube
do vasto vazio imenso em que nada coube
me alimento do que mastigo sem engolir
no momento desprovido de porvir

quantas vezes morri onde faltou a memória

Domingo, Fevereiro 12, 2012

Ameias

À meia-noite
ameaça

meio viva
meia calça
minissaia

ameia-te
negativa
nega e saia

Segunda-feira, Janeiro 02, 2012

Recuo de bateria

fiz-me passageiro desse corpo

recuado do pára-brisa
estou atento a todo movimento

aproveitando o ponto oco no peito
sem vento
meus dedos de dentro batem

tum durum dum dum

na caixa de ressonância
o ritmo
não alcança a distância lá de fora

ainda assim
minhas mãos de autômato espalham adubo para sonhos

Quinta-feira, Dezembro 22, 2011

Passageira

quando passa,
a repulsa passa
ternura
sentimento que enlaça
e perjura

o delicado da tua certeza
despeço a teu mando
não passo do estelionato
dos teus hormônios

vai passar

e, enquanto é posta a mesa,
seguirei dançando
ao som das solas dos sapatos
dos meus demônios

até passar

Segunda-feira, Dezembro 19, 2011

Em meio à areia

Na areia não cresce nada

é fácil viver no clima seco
a principal conclusão é ser prático:
faça o que quiser nessa temporada
na areia não cresce nada

mas veio água e a visão
de um rio límpido em meu caminho
e canais por onde a água corre para nutrir
os jardins onde finalmente
encontraria uma morte doce
para meus sonhos de semente

pateticamente hesito a germinar
mas te peço
me espere só mais um pouco, riozinho

se a fragilidade da vida respeito
agora pelo menos sei
que ainda bate algo no peito

Sexta-feira, Dezembro 16, 2011

Harpoon

I thrust my mind into your barrier of darkness
obsessively trying to bridge
the gap

the thoughts I throw to you go ashore
over and over
deflected by a shadow,
I can barely feel you

submerging

If only I could have you plunge
into my own void of oblivion

I'd be satisfied to be adrift in these black waters

Quarta-feira, Dezembro 14, 2011

Desengano

Romper o dia da vida
espairado na desinquietude
da aceleração do tempo

ao lado todo mundo morre

com a pressa celebram bodas
vai aonde essa corrida?

à maior ilusão de todas

Segunda-feira, Dezembro 12, 2011

Entorse

Saltando ao alto iluminado
largando ou recolhendo
os sonhos do ar gelado
ao meu peito
rarefeito

esforço
só quando me faço sólido ao solo
aterrisso, torço
em atropelo

tornando ao zelo

Quinta-feira, Novembro 24, 2011

Noite em fuga

Daqui do lugar errado
imagino que possas sentir

Hoje meus pensamentos
de tanto ocuparem-se contigo
projetam-se na noite,
manipulam o ar em tua direção

Sonho a concomitância
induzida ou fortuita

enquanto a noite foge de mim

É tanto aperto que tento
vasculhar a poeira dos mendigos
passos teus pela noite,
mas se fecham em vazio as mãos

Trai-me meu sonho, e a distância
já não me importa ser muita

enquanto a noite foge de mim

Quarta-feira, Outubro 12, 2011

Termite

Libera essa matéria
a madeira no fogo nem sente
do corpo pra mente

no brilho a alumínio
aqui se transfigura
todo desígnio

Sexta-feira, Setembro 02, 2011

Trança-pé

Na rua escura
o homem anda em
direção a seu destino

(Em que noite
nosso destino
não é decidido?)

eis que braço torcido
do solo ereto
vinga
a cicatriz de concreto

e ferindo o chão
aufere
tropeço também é ação

Quarta-feira, Agosto 31, 2011

Por sonhos maiores que a noite

O fio da aurora dura só mais um passo
tece-se a última dança
na sombra

aquece-se o ar,
e a noite vai acabar

se vem a luz,
faltará veneno
para viver nesse mundo pequeno

quero mais nada a não ser respirar
por esses desejos de fumaça

Vencerei esse sol árido
que não há de brilhar hoje
até que os sonhos cheguem ao fim

Por uma ilusão completa em mim

Quarta-feira, Agosto 10, 2011

Noite letrada

Abandona as vias cifradas e numeradas
Buscando novos códigos feito caça ao tesouro
Pelos parquinhos de flores negras
Pelos caminhos desprotegidos da noite aberta
Exposto aos raios, aos botes de estranhos
Aos potes e a banhos, aos corpos tacanhos
À psicologia oculta dos rebanhos

Brasília cidade
metrada e vadia
Vai da aritmética à poesia


Brasília, 15/10/2008

Playtime

No pingue-pongue do peito
acreditando não acreditando
coração dança
aproveito

alma balança vem com efeito
devolvo a vida vai com força
vida avança
enquanto espreito

esperança no meu leito
no ziguezague do fogo
ainda ganho
do meu jeito

Quinta-feira, Julho 14, 2011

Negra rosa

Ao lado da parede do fundo da escuridão
onde só me alcança o vento
de dentro

No canto mais isolado da noite, impublicado
Há algo que alimento

E lá escorrego
escondo e rego

uma nesga de sentimento

Segunda-feira, Julho 11, 2011

Vazante

de repente a compressão no coração cheio
água vai transbordar

se a alma inunda
escorre mágoa
calma imunda sai
tudo sai nesses dois rios

pode parecer injusto
finda a correnteza
o povo migrante

mas pode esperar

nos leitos sombrios
depois da vazante
algo se move

afinal ano que vem
dizem que chove

Quarta-feira, Julho 06, 2011

Bússola

Andando pelo deserto onde moro
perdido nas dunas do pensamento

de tão sério,
deslizo no desejo
estéril

sigo inerte caravanas de sede
migro buscando a terra

onde se age e erra

Sexta-feira, Junho 24, 2011

Electro-pompe

Vedado do mundo
com meus desejos de escuro
(-ou meus escuros de desejo?)

eis que sinto o ebulir nos caldeirões de feitiço da alma

Isolado com meu bálsamo noturno
escuto a voz, rítmica e baixa
novamente canta algo essa caixa

bomba alimentadora
submersa no mangue
do meu sangue

Segunda-feira, Maio 16, 2011

Pangeia

sentado na beira da terra
balanço as pernas
no cais aéreo

espero a nave que me fará atravessar

essa água a impor
tanto
delimita amor
e pranto

onde está o fim desse mar
que vela para que os continentes continuem assim, separados?

mantém-me longe da minha vida
onde quer que ela resida

Sexta-feira, Abril 29, 2011

Ventania

Papelzinho decola no frio
doce voo sem asas

seu corpo solto
não pensa, só sente
a suspensa corrente

na brisa envolto
acaricia a cidade
desafia
a grave idade

seu destino fatal
chega mais rápido que ar
da noite de Dacar

Quinta-feira, Abril 21, 2011

Infecção

a hiperemia do meu peito
me toma o respeito
madrugada
se queima assim não vai restar nada

cresce em mim como um edema
poema que pune
meu sistema imune

Inspeto a pira, tá certo
inspira,
inseto

Sábado, Abril 09, 2011

Febre

Dança em delírio a madrugada
esse tempo de tudo e de nada
cintila e incendeia a calma que havia

Retornarei numa manhã fria,
mas a normalidade morna, apagada,
derreterá os cristais que levo em meus olhos

Segunda-feira, Março 07, 2011

Senciência

às vezes me pergunto
por que tanto me espalho por aí

ando o mundo inteiro atrás de um sentimento que já tive
tentando descolar a consciência de mim

... hoje acordei querendo ser enganado.

às vezes me pergunto
no que é que me espelho por aí

no vento, no vento,
não ser e estar,
ser e não ficar

se de verdade estou onde queria estar e faço
o que queria fazer,
com razão,

eu só queria mais coração